Foi com admiração que a catadora de materiais recicláveis Cristina Aparecida Santana, de 41 anos, descobriu ontem como o material que ela recolhe das ruas de Itaí se transformarão num novo produto. “Nossa, que interessante. Eu sabia que dava para reciclar, mas não imaginava como isso iria acontecer”, disse ela, ao conhecer as máquinas da Unidade de Beneficiamento do Plástico, em Sorocaba, a primeira de reciclagem de plásticos do Estado, pertencente à rede Cata-Vida, mantenedora das doze cooperativas de reciclagem da região, como a Recicla Itaí.
A unidade, inaugurada ontem, terá capacidade para triturar materiais de Polipropileno (PP), como potes de margarina, de sorvete, caixas de bebida, e o Polietileno (PE), como embalagens de detergente, de xampu e garrafinhas de óleo automotivo. Num primeiro processo, o material será lavado e triturado, o que já agregará mais valor de comércio do produto, passando de R$ 0,86 o quilo para R$ 1,80.
Mas a unidade ainda terá capacidade para derreter e picotar o material, tornando-o matéria prima para, por exemplo, fabricação de novas embalagens e até mesmo, canos de construção civil. “Porém, como há custo de mão de obra, manutenção e abertura de capital de giro – com previsão de reserva nos próximos seis meses -, inicialmente o valor agregado será de 20%. Mas nosso objetivo é crescer”, afirmou Rita de Cássia Viana, presidente do Centro de Estudos e Apoio ao Desenvolvimento, Emprego e Cidadania (Ceadec), que assessora a rede.
A iniciativa beneficiará os 280 cooperados da rede. A fábrica, com capacidade para triturar 100 toneladas de plástico ao mês, começou seus trabalhos ontem com previsão inicial mensal de 17 toneladas ao mês. Mas o objetivo da rede é que a demanda de comércio com indústrias de plástico alcance a capacidade máxima de trabalho da unidade. Segundo Rita, foram cerca de quatro anos, entre o projeto e o funcionamento, até a que empresa da rede Cata-vida ficasse pronta.
Ao todo, foram investidos R$ 700 mil entre iniciativas da Petrobrás, BNDES e Sindicato dos Metalúrgicos. “Isso aqui é a realização de um sonho. Há muito tempo nós sabíamos que poderíamos valorizar e muito o trabalho dessas pessoas”, observou ela. Seu José Augusto Rodrigues de Moraes, de 65 anos, presidente da Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba (Coreso) – uma das cooperativas beneficiadas pela fábrica, emocionou-se.
“Dizem que é preciso paciência para cultivar jabuticabas. Mas, por fim, elas sempre dão frutos. Aqui está a nossa árvore, dando frutos e frutos”, falou ele. O presidente da Rede Cata-Vida e catador de materiais recicláveis, Isaias Monteiro Messias, de 37 anos, também afirmou que a inauguração da unidade é um marco para a reciclagem da região sorocabana. “Agora agregaremos valor ao nosso trabalho”, falou, mencionando também o fato da fábrica também ter a possibilidade de fazer canos de plástico para a construção civil.
Quem esteve no evento de inauguração – que reuniu autoridades da cidade e região, além de representante das cooperativas -, foi a cooperada Alessandra Lopes, de 34 anos, que, para aumentar a renda doméstica e conseguir sustentar os quatro filhos, há sete meses ingressou na Coreso, como catadora de materiais recicláveis. “Fiquei meses recolhendo objetos que poderiam ser reciclados. Agora estou trabalhando aqui na fábrica e é gratificante ver o que se transformará o difícil trabalho dos colegas da rua. É muito bom ver a transformação do plástico”, falou. A unidade fica na rua Chile, 401, no Barcelona.
Fonte: Cruzeiro do Sul
O secretário de Parcerias de Sorocaba (Separ), Roberto Juliano, agora reconhece que pode remunerar os cooperados da coleta seletiva. Em setembro do ano passado, ele alegou empecilhos legais para pagar às cooperativas por tonelada coletada, o mesmo que remunera a empresa terceirizada. Ele ignorava o artigo 24 da lei de licitações (8.666/93, atualizada pela lei 11.445, de 2007) que dispensa a concorrência entre empresas para a “contratação da coleta, processamento e comercialização de resíduos sólidos urbanos recicláveis ou reutilizáveis, em áreas com sistema de coleta seletiva de lixo, efetuados por associações ou cooperativas formadas exclusivamente por pessoas físicas de baixa renda…”.
O secretário responsável em promover parcerias entre a Prefeitura e a sociedade dizia que apenas poderia pagar pela coleta seletiva por meio de licitação. “Se abrirmos concorrência, qualquer outra empresa pode vencer”, afirmava. Agora, a representante de uma das cooperativas, Coreso/Ceadec, Rita Gonçalves de Cassia Viana, reclama da postura de Roberto Juliano. “Disse (sobre a licitação) porque é desinformado (…) se fixar os valores vai garantir a profissionalização, a regularidade na coleta e poderá cobrar a eficiência do trabalho (…) é a passividade do Poder Público que pode fazer algo e não faz”. A opinião diverge entre as cooperativas. “A Prefeitura já paga o aluguel do barracão, luz, água, IPTU, balança, computador, dá o caminhão e combustível e ainda vai pagar por tonelada? Se for assim é preferível acabar com as cooperativas e pagar para a Gomes Lourenço fazer coleta seletiva”, defende o tesoureiro da cooperativa Reviver, Sílvio Luiz Júnior.
A Coreso quer R$ 104, a soma dos R$ 67 com os R$ 37, por tonelada coletada e enviada para a reciclagem. Segundo a representante da Coreso/Ceadec, esse valor, além do que obtém com a venda dos recicláveis seria suficiente para ampliar a área de coleta, o volume de material, além de reconquistar os catadores desanimados com os R$ 250 de remuneração no ápice da crise. A Prefeitura divulga que investe cerca de R$ 35 mil nos quatro núcleos com os quais a administração municipal mantém termo de parcerias. Apenas um dos quatro núcleos da Coreso possui parceria com o município, gerando reclamações de equiparação com outras cooperativas da cidade. A Separ não revela se pretende remunerar as cooperativas pela coleta, apenas diz que trabalha para ampliar a parceria, deixando de informar quando ocorrerá tal ampliação.
Atualmente, as quatro cooperativas recolhem 247 toneladas mensais, o equivalente a 1,8% das cerca de quatro mil toneladas de recicláveis que todos os meses acabam no aterro sanitário. Para a terceirizada Gomes Lourenço a Prefeitura paga R$ 67,95 pela coleta da tonelada e gasta outros R$ 37 por tonelada com a manutenção do aterro no Retiro São João. Como, a partir de agosto, o aterro não poderá mais receber o lixo, a expectativa é que os R$ 37 para cada tonelada, hoje gastos com a manutenção, transformem-se em cerca de R$ 100 na “exportação”. Outros R$ 68 por tonelada deverão continuar sendo pagos pela coleta à empresa terceirizada. Enquanto as cooperativas destinam para a reciclagem, a empresa terceirizada manda para um aterro.
A secretária municipal de Meio Ambiente, Jussara de Lima Carvalho, aposta na implementação da coleta de recicláveis como forma de reduzir os custos com a “exportação” do lixo. Na Câmara, um projeto de lei do vereador Izídio de Brito Correia (PT) propõe a remuneração para as cooperativas por tonelada de reciclável coletada, no mesmo valor que a Prefeitura gasta para aterrar o lixo doméstico. A proposta começou a tramitar no ano passado mas foi barrada porque partiu de um vereador, enquanto que deveria ser apresentada pela Prefeitura, já que gera gastos ao município. O vereador Izídio reclama que aguarda o projeto de autoria da Prefeitura prometido pelo Executivo desde outubro.
Bolso dos sorocabanos
Com a saturação do aterro no Retiro São João, a partir do dia 5 de agosto a população sorocabana começará a pagar para “exportar” lixo pelo valor estimado de R$ 1,5 milhão ao mês. Se a situação da coleta seletiva for mantida nos mesmos patamares de 1,8%, quase R$ 500 mil mensais serão gastos para enterrar o material reciclável em aterro particular. Hoje, a Prefeitura gasta R$ 500 mil mensais para dar destino a todo o lixo e não revela se tem a intenção de repassar a diferença de 300% para a taxa de remoção de lixo. O valor anual da menor taxa de remoção de lixo hoje em Sorocaba é de R$ 26,00 e da maior, R$ 3.724,88. Ela é calculada pelo metro quadrado e localização do imóvel de acordo com o zoneamento do Plano Diretor e se é residencial ou comercial.
Fonte: cruzeirodosul.inf.br